sexta-feira, 4 de abril de 2014

Atividade 3: Queremos Saber

Queremos Saber

Uma nova reflexão sobre a relação entre o Ensino de Ciências e as possíveis concepções sobre ciência agora apontando no sentido inverso: a influência do ensino na formação da imagem da ciência. Se na reflexão anterior discutiu-se a marca da imagem sobre o ensino, imagem esta que faz o professor, agora têm-se como foco o impacto sobre os estudantes. O texto sugerido como referência principal expõe alguns pontos relevantes para serem incluídos no currículo de ciências, dentre os quais se destacam a (a) inserção de situações problemáticas, (b) a formulação de hipóteses e (c) de estratégias, (d) análise de resultados, (e) discussão das relações CTS, (f) considerar a comunicação do trabalho como etapa igualmente relevante, dentre outros (GIL PEREZ et al., 2001). Esses parecem ser aspectos relacionados à produção do conhecimento científico e não ao ensino! Ensinar ciências é ensinar como os conceitos científicos foram desenvolvidos ao longo do tempo, com suas relações sociais, tecnológicas, ambientais, econômicas ou é ensinar a pensar cientificamente? Os dois! O ensino de ciências voltado unicamente para a reprodução de conceitos que são produtos do trabalho científico está longe de ter os mesmo objetivos do ensino voltado à Alfabetização Científica. A justaposição de conceitos, sem ao menos mostrar a relação entre eles, menos ainda com aspectos sociais, somente fomenta uma visão de ciência igualmente cartesiana, (uni) metódica, alimentando, por exemplo, uma concepção empírico-indutivista – em que a observação de um fenômeno gera a teoria e o experimento a comprovará – reduzindo a ciência a uma inexistente neutralidade.
O característico pluralismo metodológico da ciência deve também ser levado ao ensino de ciências (LABURÚ, ARRUDA, NARDI, 2003). Práticas que (a) não se limitem a ilustrar os aspectos históricos, levando os estudantes a construir a própria história dos seus conhecimentos, (b) que ao invés de apenas discutir o contexto histórico em que estava imerso o mundo num período em que determinado paradigma científico surge, favoreçam os estudantes a quebrar seus próprios paradigmas refletindo sobre os motivos os quais o levaram a ter crenças que podem ser contestadas, (c) que mostre como a criatividade e o conhecimento prévio são importantes para a formulação de hipóteses, humanizando o trabalho científico, com certeza favorecerão a construção de uma imagem de ciências menos deformada. Refletir sobre o trabalho científico e os impactos sócio-ambientais, e como as questões sociais, políticas, econômicas impactam na ciência pode não ser palpável nas séries iniciais, por exemplo. Mas Lemke (2006, apud SASSERON, CARVALHO, 2011) justifica que aspectos diferentes devem ser desenvolvidos em etapas diferentes da formação. Assim, valorizando a construção de uma visão de ciência menos deformada desde os anos iniciais. Os versos da música “Queremos saber” de autoria de Gilberto Gil revela genialmente a preocupação o eu-lírico com as questões científicas. No fundo, uma sutil reflexão sobre a maneira como é vista a produção científica e, mais ainda, sobre os impactos sobre a vida dos desfavorecidos... (“Queremos saber/o que vão fazer/com as novas invenções./Queremos notícia mais séria/sobre a descoberta da antimatéria/e suas implicações/na emancipação do homem/das grandes populações,/homens pobres das cidades,/das estepes, dos sertões./Queremos saber/quando vamos ter/raio laser mais barato./Queremos de fato um relato,/retrato mais sério do mistério da luz,/luz do disco voador,/pra iluminação do homem/tão carente, sofredor,/tão perdido na distância/da morada do Senhor./Queremos saber,/queremos viver/confiantes no futuro./Por isso se faz necessário/prever qual o itinerário da ilusão,/da ilusão do poder./Pois se foi permitido ao homem/tantas coisas conhecer,/é melhor que todos saibam/o que pode acontecer.”)       
Referências
Gil Perez, D.; Montoro, I. F.; Alís, J. C.; Cachapuz, A.; Praia, J.; Para uma imagem não deformada do trabalho científico. Rev. Ciência e Educação, v. 7, n. 2, p. 125-153, 2011.
Sasseron, L; Carvalho, A. M. P.; Alfabetização Científica: uma revisão bibliográfica. Rev. Investigação no Ensino de Ciências. v. 16, n.1, p. 59-77, 2011.
Laburú, C. E.; Arruda, S. M.; Nardi, R.; Pluralismo metodológico no ensino de ciêncais. Rev. Ciência e Educação, v. 9, n. 2, p. 247-260, 2003.
Lamke, J. L. Investigar para el futuro de la educación científica: nuevas formas de aprender, nuvas formas de vivir. Rev. Ensenanza de las ciencias. v.24, n.1, 5-12.  


                                                             Dr. Manhattan http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/c/c7/Dr_Manhattan_symbol.svg/115px-Dr_Manhattan_symbol.svg.png                                                                                

Um comentário:

  1. Muito interessante seu texto e as relações... só senti falta de explicar melhor quando você fala:
    "O texto sugerido como referência principal expõe alguns pontos relevantes para serem incluídos no currículo de ciências....Esses parecem ser aspectos relacionados à produção do conhecimento científico e não ao ensino!"

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