quinta-feira, 3 de abril de 2014

Como o ensino de ciências pode contribuir para a construção de uma imagem não deformada das ciências?



Existem várias alternativas que a educação pode proporcionar para a desconstrução da imagem não progressiva e não criativa do trabalho científico e todas se baseiam numa perspectiva de ensino investigativo, contextualizado, participativo e preocupado com o decurso histórico da ciência, enfim, num ensino de ciências que se preocupe com o processo e não com os resultados isolados. O diagrama da investigação científica apresentado em sala de aula, expõe de modo propedêutico o processo de construção do conhecimento científico que pode contribuir para a construção do conhecimento científico nas escolas, pelo qual não existem limites para os questionamentos, as ideias e as interações entre as diferentes linhas de conhecimento (transdisciplinaridade).

Gil Pérez, et al (2001) apresentam ao final do artigo um quadro com aspectos que, ao serem incluídos no currículo de ciências, proporcionam uma construção do conhecimento científico que pode equiparar-se ao processo de investigação científica presente no diagrama citado. Se houver no ensino uma preocupação com o processo investigativo do qual os alunos terão o papel dos cientistas, já que estarão propondo coletivamente diversas soluções para uma situação problemática aberta, haverá neste contexto uma articulação analítica, crítica e reflexiva entre os conhecimentos prévios do aluno frente ao problema (hipóteses) e os conhecimentos dos estudos direcionados e da análise dos dados obtidos através de várias estratégias. Desta articulação pode surgir novas perguntas e implicações em campos diferentes de conhecimento. Em todo esse processo existe a discussão e definição de ideias de forma coletiva, o que pode despertar nos alunos a deformação da imagem deformada do trabalho científico.

Em outra perspectiva, sabe-se que a concepção de ciência como verdade absoluta e acabada pelos estudantes não será desconstruída se o próprio professor apresentar uma ideia de trabalho científico limitado e infundamentado a partir de concepções prévias construídas no decorrer de sua formação escolar, social e acadêmica. Logo, se o professor apresenta um papel fundamental para a descaracterização do trabalho científico acrítico, ahistórico, ateórico, aproblemático, exclusivamente analítico, linear, individualista, elitista, rígido e empírico-indutivista, este deve ter a iniciativa, através da busca de conhecimentos sobre a evolução das ideias científicas e formação continuada, para que então possa proporcionar a esses estudantes uma visão mais humanista do cientista.

Portanto, se por um lado o aluno precisa compreender o processo de construção do conhecimento para a descaracterização da imagem deformada da ciência, por outro, o professor precisa estar livre de dogmas e preconceitos acerca do modo como os cientistas apresentam as teorias para que eticamente, possa transmitir confiança numa apresentação de uma ciência mais humanizada e que então possa permitir uma educação cujo processo é característica fundamental no trabalho científico.



Nolácio Espiridino Putrefádio

Referência:

GIL-PÉREZ, D.; MONTORO, I.F.; ALIS, J.C.; CACHAPUZ, A.; PRAIA, J. Para uma imagem não deformada do trabalho científico. Ciência & Educação, Vol. 7, Nº 2, p. 125-153, 2001. 

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