Como o ensino de ciências pode contribuir para a construção de uma imagem não deformada das ciências?
Existem várias
alternativas que a educação pode proporcionar para a desconstrução da imagem
não progressiva e não criativa do trabalho científico e todas se baseiam numa
perspectiva de ensino investigativo, contextualizado, participativo e
preocupado com o decurso histórico da ciência, enfim, num ensino de ciências
que se preocupe com o processo e não com os resultados isolados. O diagrama da
investigação científica apresentado em sala de aula, expõe de modo propedêutico
o processo de construção do conhecimento científico que pode contribuir para a
construção do conhecimento científico nas escolas, pelo qual não existem
limites para os questionamentos, as ideias e as interações entre as diferentes
linhas de conhecimento (transdisciplinaridade).
Gil Pérez, et al
(2001) apresentam ao final do artigo um quadro com aspectos que, ao serem incluídos
no currículo de ciências, proporcionam uma construção do conhecimento científico
que pode equiparar-se ao processo de investigação científica presente no
diagrama citado. Se houver no ensino uma preocupação com o processo
investigativo do qual os alunos terão o papel dos cientistas, já que estarão propondo
coletivamente diversas soluções para uma situação problemática aberta, haverá neste
contexto uma articulação analítica, crítica e reflexiva entre os conhecimentos
prévios do aluno frente ao problema (hipóteses) e os conhecimentos dos estudos
direcionados e da análise dos dados obtidos através de várias estratégias. Desta
articulação pode surgir novas perguntas e implicações em campos diferentes de
conhecimento. Em todo esse processo existe a discussão e definição de ideias de
forma coletiva, o que pode despertar nos alunos a deformação da imagem
deformada do trabalho científico.
Em outra
perspectiva, sabe-se que a concepção de ciência como verdade absoluta e acabada
pelos estudantes não será desconstruída se o próprio professor apresentar uma
ideia de trabalho científico limitado e infundamentado a partir de concepções
prévias construídas no decorrer de sua formação escolar, social e acadêmica. Logo,
se o professor apresenta um papel fundamental para a descaracterização do trabalho
científico acrítico, ahistórico, ateórico, aproblemático, exclusivamente analítico,
linear, individualista, elitista, rígido e empírico-indutivista, este deve ter
a iniciativa, através da busca de conhecimentos sobre a evolução das ideias
científicas e formação continuada, para que então possa proporcionar a esses
estudantes uma visão mais humanista do cientista.
Portanto, se por
um lado o aluno precisa compreender o processo de construção do conhecimento para
a descaracterização da imagem deformada da ciência, por outro, o professor
precisa estar livre de dogmas e preconceitos acerca do modo como os cientistas
apresentam as teorias para que eticamente, possa transmitir confiança numa
apresentação de uma ciência mais humanizada e que então possa permitir uma educação
cujo processo é característica fundamental no trabalho científico.
Referência:
GIL-PÉREZ, D.; MONTORO, I.F.; ALIS, J.C.; CACHAPUZ, A.; PRAIA, J. Para uma imagem não deformada do trabalho científico. Ciência & Educação, Vol. 7, Nº 2, p. 125-153, 2001.
Nolácio Espiridino Putrefádio
Referência:
GIL-PÉREZ, D.; MONTORO, I.F.; ALIS, J.C.; CACHAPUZ, A.; PRAIA, J. Para uma imagem não deformada do trabalho científico. Ciência & Educação, Vol. 7, Nº 2, p. 125-153, 2001.

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