O Ensino de Ciências contribuindo para a construção de
uma imagem não deformada das ciências.
Os conceitos de
ciência permeiam diferentes contextos sociais e culturais. Suas definições
influenciam representações adequadas da construção do conhecimento científico,
assim como o modo como ele é cultural e socialmente apreendido, tendo impacto nas
concepções dos seres humanos acerca das relações entre ciência, tecnologia e
sociedade (TOBALDINI, 2011).
Essas representações
da construção do conhecimento científico são dependentes de
visões/interpretações deformadas dos professores sobre o trabalho científico. Muitas
vezes, o ensino científico está reduzido a uma mera apresentação do
conhecimento elaborado, sem mostrar sua relação com os problemas que lhe deram
origem, sua evolução e dificuldades encontradas. Isso acontece frequentemente
no Ensino Básico, mas também no Ensino Superior, como nos cursos de
licenciatura em Física, Biologia e Química. Nesses cursos, este problema se
torna ainda mais crítico, visto que os estudantes estão em seu processo de
formação inicial docente, e tendem a reproduzir este comportamento para seus
alunos futuramente.
Como forma de
evidenciar as visões deformadas dos professores sobre o trabalho científico, Gil-Pérez
et al. (2001) indicam sete principais deformações do trabalho científico: 1.
Concepção empirico-indutivista e ateatória - destaca o papel “neutro” da
observação e da experimentação, esquecendo o papel essencial das hipóteses como
orientadoras da investigação; 2. Visão rígida, exata - destaca o rigor do
método científico e o caráter exato dos resultados obtidos; 3. Visão dogmática
e fechada; 4. Visão exclusivamente analítica, destacando o caráter limitado e
simplificador da ciência; 5. Visão acumulativa de crescimento linear dos
conhecimentos científicos; 6. Visão individualista e elitista da ciência; 7.
Visão descontextualizada, socialmente neutra da ciência - esquece as relações
entre ciência, tecnologia e sociedade e coloca os cientistas como seres “acima
do bem e do mal”.
Um trabalho
cientifico balizado por estas visões apresenta uma deformação do que seria a
construção do conhecimento cientifico. A essência da orientação científica se
encontra na mudança de pensamentos, atitudes e ações baseados em “evidências”
do senso comum, para um raciocínio em termos de hipótese, por sua vez mais
criativo e mais cuidadoso (GIL-PÉREZ et. al., 2011). Para tanto, a inserção de uma
percepção contemporânea da ciência no Ensino Superior pode permitir uma melhor
formação de futuros profissionais, em especial professores de ciências. Esta
formação deve contemplar que os discentes confrontem a existência de “verdades
científicas”, duvidem dos resultados e procurem uma coerência global,
contribuindo assim para uma visão não deformada do ensino de ciências.
Sofia
de Beauvoir
Referências
GIL-PÉREZ, D.; MONTORO, I.F.; ALÍS,
J.C.; CACHAPUZ, A.; PRAIA, J. Para uma imagem não deformada do trabalho
científico. Ciência & Educação,
Vol. 7, Nº2, p.125-153, 2001.
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