quarta-feira, 2 de abril de 2014


O Ensino de Ciências contribuindo para a construção de uma imagem não deformada das ciências.

Os conceitos de ciência permeiam diferentes contextos sociais e culturais. Suas definições influenciam representações adequadas da construção do conhecimento científico, assim como o modo como ele é cultural e socialmente apreendido, tendo impacto nas concepções dos seres humanos acerca das relações entre ciência, tecnologia e sociedade (TOBALDINI, 2011).

Essas representações da construção do conhecimento científico são dependentes de visões/interpretações deformadas dos professores sobre o trabalho científico. Muitas vezes, o ensino científico está reduzido a uma mera apresentação do conhecimento elaborado, sem mostrar sua relação com os problemas que lhe deram origem, sua evolução e dificuldades encontradas. Isso acontece frequentemente no Ensino Básico, mas também no Ensino Superior, como nos cursos de licenciatura em Física, Biologia e Química. Nesses cursos, este problema se torna ainda mais crítico, visto que os estudantes estão em seu processo de formação inicial docente, e tendem a reproduzir este comportamento para seus alunos futuramente.

Como forma de evidenciar as visões deformadas dos professores sobre o trabalho científico, Gil-Pérez et al. (2001) indicam sete principais deformações do trabalho científico: 1. Concepção empirico-indutivista e ateatória - destaca o papel “neutro” da observação e da experimentação, esquecendo o papel essencial das hipóteses como orientadoras da investigação; 2. Visão rígida, exata - destaca o rigor do método científico e o caráter exato dos resultados obtidos; 3. Visão dogmática e fechada; 4. Visão exclusivamente analítica, destacando o caráter limitado e simplificador da ciência; 5. Visão acumulativa de crescimento linear dos conhecimentos científicos; 6. Visão individualista e elitista da ciência; 7. Visão descontextualizada, socialmente neutra da ciência - esquece as relações entre ciência, tecnologia e sociedade e coloca os cientistas como seres “acima do bem e do mal”.

Um trabalho cientifico balizado por estas visões apresenta uma deformação do que seria a construção do conhecimento cientifico. A essência da orientação científica se encontra na mudança de pensamentos, atitudes e ações baseados em “evidências” do senso comum, para um raciocínio em termos de hipótese, por sua vez mais criativo e mais cuidadoso (GIL-PÉREZ et. al., 2011). Para tanto, a inserção de uma percepção contemporânea da ciência no Ensino Superior pode permitir uma melhor formação de futuros profissionais, em especial professores de ciências. Esta formação deve contemplar que os discentes confrontem a existência de “verdades científicas”, duvidem dos resultados e procurem uma coerência global, contribuindo assim para uma visão não deformada do ensino de ciências.

Sofia de Beauvoir

Referências

GIL-PÉREZ, D.; MONTORO, I.F.; ALÍS, J.C.; CACHAPUZ, A.; PRAIA, J. Para uma imagem não deformada do trabalho científico. Ciência & Educação, Vol. 7, Nº2, p.125-153, 2001.

TOBALDINI, B. G.; CASTRO, L. P. V.; JUSTINA, L. A.D.;MEGLHIORATTI, F. A. Aspectos sobre a natureza da ciência apresentados por alunos e professores de licenciatura em ciências biológicas. Revista Electrónica de Enseñanza de las Ciencias, Vol. 10, Nº 3, p.457-480, 2011.

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