É fundamental que os
professores de ciências tenham condição de transmitir uma imagem adequada do
que é a construção do conhecimento científico. Porém, na prática isso não
acontece. O ensino científico é reduzido basicamente à apresentação de
conhecimentos previamente elaborados. Dessa forma, os alunos não têm a
oportunidade de participar de um ensino do tipo investigativo, construindo,
assim, uma visão popular da ciência, “associada a um suposto método científico,
único, algorítmico, bem definido e quiçá, mesmo, infalível” (GIL-PÉREZ et.al.,
2001, p.126).
Nesse sentido, as
limitações apresentadas pela educação científica, “deram origem a investigações
que evidenciaram as concepções epistemológicas inadequadas e mesmo incorretas
como um dos principais obstáculos aos movimentos de renovação da Educação em
Ciência/Didática das Ciências” (GIL-PÉREZ et.al., 2001, p.126). Assim,
evidenciar as deformações que o ensino de ciências está transmitindo, pode
contribuir para o alcance de concepções epistemológicas mais adequadas, que
podem ter incidência positiva para o ensino.
No trabalho de
Gil-Pérez et.al. (2001) são apresentadas algumas destas deformações: concepção
empírico-indutivista e ateórica, visão rígida (algorítmica, exata, infalível),
visão aproblemática e ahistórica, visão exclusivamente analítica, visão
acumulativa de crescimento linear, visão individualista e elitista da ciência,
e imagem socialmente neutra da ciência.
A partir da
identificação das visões deformadas da ciência, os professores podem tentar
aproximar-se de uma imagem mais correta e adequada do trabalho científico,
evitando, assim, a transmissão destas aos alunos. Além disso, os professores de
ciências precisam dar maior atenção a alguns aspectos destacados por Gil-Pérez et.al.
(2001), como: a recusa da ideia de “método científico”; a recusa de um
empirismo que concebe os conhecimentos como resultados da inferência indutiva a
partir de “dados puros”; destacar o papel atribuído pela investigação ao
pensamento divergente; a procura de coesão global; e compreender o caráter
social do desenvolvimento científico.
Visando a educação
científica de cidadãos críticos, que permita a utilização e a aplicação dos
conhecimentos científicos adquiridos, os professores precisam de uma melhor
compreensão do trabalho científico (SASSERON e CARVALHO, 2011). Torna-se
necessário também, a inclusão de alguns aspectos relevantes no currículo de
ciências que podem favorecer a construção dos conhecimentos científicos. Dentre
estes aspectos, Gil-Pérez et.al. (2001), destaca: apresentar situações
problemáticas abertas; despertar o interesse pelas situações propostas;
realizar análise qualitativa; formular hipóteses; formular estratégias;
analisar atentamente os resultados; considerar possíveis perspectivas, em
particular as implicações CTS; realizar a integração; ter atenção à
comunicação; e destacar a dimensão coletiva do trabalho científico. Desta
forma, o ensino de ciências estará contribuindo para a construção de uma imagem
não deformada das ciências.
Referências
GIL-PÉREZ,
D.; MONTORO, I.F.; ALÍS, J.C.; CACHAPUZ, A.; PRAIA, J. Para uma imagem não
deformada do trabalho científico. Ciência
& Educação, Vol. 7, Nº2, p.125-153, 2001.
SASSERON,
L. H.; CARVALHO, A. M. P. Alfabetização Científica: uma revisão bibliográfica. Investigações
em Ensino de Ciências – V16(1), pp. 59-77, 2011
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